sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vi meu irmão morrendo. Estava ao seu lado. Ele dirigia e contava histórias de um amanhã que não chegou. Cantamos sozinhos naquela tarde tão longa. Nós dois. Eu tinha apenas 15 anos e, por milagre, sobrevivi. Vi seu soluço inconsciente, seu suspiro final. Tentei abraçá-lo, enquanto vozes se aproximavam. Meus braços não se moviam. A dor física era pequena diante da possibilidade da separação. Olhei-o com ternura. Separamo-nos. Meu irmão partia sem ter o direito de se despedir. Sem dizer o que gostaria que fizéssemos por ele. Apenas partiu. Minha mãe vestiu-se de preto por algum tempo. As sombras tomavam seu semblante, e gritos de dor eram entremeados por dias de silêncio. Meu pai era só silêncio. Em suas orações, lágrimas solitárias pediam a Deus que acolhesse o fruto do seu amor. A morte nunca tinha estado tão perto de mim. Acho que não pensava muito nela. Nos dias em que fiquei engessada, tentando recompor partes quebradas do meu corpo, quebrei-me em perguntas sem respostas. Por que ele partira e eu ficara? Era tantos porques? e nada de respostas.Chorei a certeza de não mais ouvir suas anedotas singelas e suas histórias . Fazia arte com simplicidade.

Dormíamos no mesmo quarto, e ele fazia-se de forte, investigando todos os lugares onde poderia haver algum perigo capaz de nos atingir. Sorria quando, depois de certo suspense, comunicava que nem debaixo da cama, nem atrás das cortinas, havia monstros ou figuras semelhantes. Podíamos dormir em paz. Era carinhoso. Irreverente. E gostava de viver.Sua alegria pura, sua ingenuidade de uma infância sem fim!Sorria sem economia.
Irmão que partiu prematuramente. Irmão que continua presentes na capacidade que tenho de pensar nele.



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